Treinar Pra Que?

28/06/2015 11:28
Treinar pra que?

Em uma empresa, se treinamos estamos buscando fazer com que os seus colaboradores tenham a possibilidade de aprender algo inerente à execução das suas funções.  Este aprendizado está focado no ajuste ou complemento das deficiências apresentadas no dia-a-dia; no aparelhamento para assunção de novas tarefas, funções e responsabilidades; na integração funcional e institucional de novos colaboradores; quando se apresenta algum novo processo de trabalho ou metodologia de aprendizado; ou a inserção de uma nova tecnologia. O treinamento se caracteriza como um processo de educação de curto prazo, aplicado de maneira sistemática e organizada.

            Com a velocidade das mudanças nos diversos ambientes tecnológicos, sociais, econômicos e políticos, cada vez mais se torna necessário a adaptação aos novos tempos, e o treinamento nas organizações é a saída que dispomos para acompanhar estas mudanças. Estamos em um processo evolutivo jamais visto na nossa história, e as empresas têm um papel fundamental nesta evolução. Mudamos mais nos últimos 50 anos do que nos 500 anos anteriores. Fazendo uma breve comparação dos últimos 100 anos, tínhamos um mundo completamente diferente dos dias atuais, não tínhamos computadores, celulares, aviões supersônicos, submarinos nucleares, filmes coloridos, sistemas de satélites, e muitas outras coisas que hoje sequer poderíamos cogitar em viver sem elas, e sem falar do avanço dos direitos humanos, da medicina e da qualidade e expectativa de vida que hoje desfrutamos. E a partir daí temos a deixa para falarmos sobre o nosso tema: TREINAR PRA QUE? Ora, se precisamos nos adaptar às transformações do ambiente, acompanhar estas evoluções e sobreviver, necessitamos de pessoas preparadas para executar da melhor forma possível as suas atribuições, rogamos por mais eficácia e eficiência. Simples, não? Mas aí é que mora o perigo, não basta decidir treinar por treinar, ou porque está na ordem do dia, é preciso definir o que treinar, quem treinar, porque treinar e saber se o treinamento está devidamente alinhado com o plano estratégico da organização e com os planos de desenvolvimento individual e da equipe, que são definidos previamente mediante uma avaliação de desempenho e competências.

            Treinamos para melhorar o desempenho e resultado de uma organização, para sermos os melhores, mais admirados, rentáveis, lucrativos e podermos atrair e reter os melhores talentos. Toda empresa busca melhores resultados e seus colaboradores querem para si melhores oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. O investimento em treinamento é necessário, e disso todos têm consciência. Investir em capacitação é relativamente caro para a maioria das empresas, seja na contratação de profissionais e empresas especializadas, na logística dos treinamentos, e nas horas em que os profissionais estão “parados” sejam em sala de aula, no aprendizado à distância ou em outras modalidades. Para que este investimento traga os frutos esperados, é preciso que haja um forte compromisso dos principais gestores em acreditar que este processo é de extremo valor para a organização e que ele será responsável pelas mudanças esperadas com o investimento nas principais necessidades de treinamento. Além do compromisso, se faz primordial o alinhamento entre os planos da empresa, as competências dos seus colaboradores e seus anseios pessoais e profissionais.

            O sucesso de um plano de treinamento está na busca pelo equilíbrio entre os interesses da empresa e dos seus funcionários. Se por um lado os profissionais trazem consigo pretensões variadas como a sobrevivência, desenvolvimento e ascensão profissional, bem como suas vivências anteriores em outras organizações, e sua formação sociocultural. No outro lado temos a empresa com sua cultura organizacional, Missão, Visão, Valores, políticas, estrutura e comunicação.

            Neste cenário temos dois entes que precisam entrelaçar seus interesses, tornando-os comuns. É como fazer funcionar a engrenagem de uma máquina, onde seus componentes têm que trabalhar harmonicamente, ajustando-se a cada movimento em busca do resultado esperado. Estas engrenagens precisam continuamente de manutenção, ajustes, lubrificação e renovação de peças desgastadas ou fora do padrão, do contrário os resultados jamais serão satisfatórios.

            Por tanto, investir em treinamento requer a percepção de que interesses organizacionais e pessoais devem estar harmonizados entre si, caso contrário não se conseguirá os resultados esperados dos treinamentos.

            Um programa de treinamento ajustado deve ter seus conteúdos e objetivos bem claros e definidos. O seu conteúdo deve estar calcado na transmissão de informações, no desenvolvimento de aptidões, comportamentos e conceitos. Neste mesmo contexto, os objetivos do treinamento devem fazer com que as pessoas sejam capazes e que ele torne-se um elo que fortaleça e promova o desenvolvimento continuado com verdadeiras transformações de atitudes.

              Dá para perceber quando há desarmonia e falta de ajuste entre os interesses da empresa e dos colaboradores quando verificamos algumas fases interessantes dos treinamentos. Pela minha experiência e vivência em treinamentos, pude verificar este desalinhamento em muitas empresas, quando o colaborador passa por um programa de formação, aprende novas técnicas, ideias e sai do evento disposto, com todo “gás” para colocar em prática o que vivenciou em sala. Chegando a seu ambiente de trabalho vem a decepção. Ele percebe que nada daquilo (ou bem pouco) pode ser efetivamente implementado, que é algo muito distante do que a empresa permite ou realmente deseja implementar. Imbuídos desta dura realidade, o colaborador trona-se reativo a qualquer forma de desenvolvimento, começa a achar que é uma verdadeira perda de tempo, de que não adianta passar horas treinando se não pode aplicar nada daquilo. Surge assim o colaborador desacreditado em treinamento e frustrado com as ações que a empresa toma. Se por um lado eles estão assim, a alta direção da empresa questiona o investimento realizado, que não está sendo aproveitado, que eles não irão mais optar por treinar a equipe, que os treinamentos não dão resultados, que é uma total perda de tempo e dinheiro.

            Vejam que confusão! Tudo ocorre por falta total de alinhamento entre os interesses. Na verdade os treinamentos são fundamentais, mas quando são mal conduzidos desde a sua concepção, sem tomar os devidos cuidados, realmente suscita o questionamento: TREINAR PRA QUE?

            Já ouvi muitos gestores e empresários afirmarem que não agüentam mais investir em treinamentos, que não vêm melhoras, que a equipe não está interessada, e por que eles devem sempre treinar, treinar e treinar.... Em geral, refuto estas objeções, afirmando que treinar é como tomar banho, precisamos todos os dias. Basta experimentar ficar uns dias sem tomar banho para ver o resultado. Do mesmo modo, ficar sem capacitar a equipe torna a empresa vulnerável, abre espaço para a concorrência e a perda de clientes, seja pela inoperância, pelo mau atendimento, por parar no tempo ou simplesmente por não conseguir desenvolver novas competências.

            As artes e esportes representam um grande referencial para o treinamento nas empresas. Os melhores times e atletas, músicos, pintores, orquestras e bandas, são aqueles que treinam exaustivamente. Você já percebeu que algumas pessoas são muito melhores do que outras quando desempenham uma determinada tarefa? Esta superioridade é fruto de talento ou de preparação? É inspiração ou transpiração?  Onde entra o treinamento?

Tentando responder a estas questões, vou citar uma pesquisa realizada pelo psicólogo sueco Anders Ericsson da Universidade da Flórida e sua equipe na década de 1990 na Academia de Música de Berlim, onde ele buscou mostrar que o talento tem a sua relevância, mas deixar os resultados apenas a cargo dele não basta. Que para se tornar realmente muito bom em algo é preciso muita preparação, muito treino e dedicação. Esta preparação gira em torno de 10 mil horas, que equivale a aproximadamente uma dedicação de três horas por dia, ou 20 horas por semana “suando a camisa”, treinando e muito, por 10 anos. E estas 10 mil horas representam o hiato entre as pessoas comuns daquelas excepcionais.

A sua experiência baseou-se em identificar quais músicos da Academia eram considerados gênios e quais eram apenas bons executores. Assim, fizeram uma separação distinguindo os músicos em três grupos: os dos gênios, os bons e os que eram considerados ruins (todos eram violinistas). Ao estudar cada grupo, um fato curioso veio à tona: praticamente todos começaram a tocar por volta dos cinco anos de idade, e praticavam, em média, duas a três horas por semana. Até aí tudo bem, mas a partir dos oito anos de idade inicia-se uma diferenciação entre estas crianças, surge o primeiro fator que mais tarde iria os distinguir dos demais. Os alunos que mais se destacavam chegavam a treinar por volta de seis horas por semana, e com o passar dos anos estas horas semanais foram aumentando. Ao chegarem aos 20 anos, aqueles considerados gênios treinavam pelo menos 30 horas semanais, tendo assim acumulado até aquele momento cerca de 10 mil horas de prática. A mesma experiência foi repetida com pianistas e o resultado foi o mesmo. Ericsson continuou a sua pesquisa por mais alguns anos, buscando analisar pessoas talentosas em áreas distintas, e a conclusão que ele chegou foi que a preparação para chegar à excelência demanda, pelo menos, 10 mil horas de treino constante de uma prática seguida, eis aí um diferencial de quem se dedica e aprende mais para quem apenas executa uma tarefa diária.

Porém, frente a esta teoria há uma ressalva de que além destas horas de treinamento, deve-se usar a atenção concentrada durante o treino, ajustando a execução várias vezes para que possa chegar ao ponto desejado, esta é a prerrogativa da melhoria continuada. Não basta repetir, tem-se que aperfeiçoar a execução através de treinamentos com variações de níveis.

            Quanto mais treinamos, melhores ficamos, simples! Eis aí um motivo e tanto para fazer com que o treinamento seja indispensável nas empresas caso queiram chegar a excelência. Treinar pressupõe aperfeiçoamento contínuo, eliminação de erros, o que consequentemente gera maiores e melhores resultados.

TREINAR PRA QUE? Para nos tornarmos melhores, para garantirmos um lugar de destaque neste cenário empresarial cada vez mais competitivo, com clientes muito mais exigentes, e com ofertas variadas de produtos e serviços vindas de todos os lados num mundo cada vez mais globalizado e sem fronteiras. Treinar é preciso para que possa dar continuidade ao processo de educação e preparação do profissional dentro da empresa visando o alcance de melhores resultados, por tanto é uma atividade de extrema importância dentro de qualquer empresa.

 

Alexandre Dantas

 

Referencias Bibliográficas

 

GLADWELL, Malcolm. Fora de Série Outliers. Rio de Janeiro: Sextane, 2008

GOLEMAN, Daniel. Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014

CHIAVENATO, I. Recursos Humanos. 7ª ed, São Paulo: Atlas, 2002