A Paz é uma Vitória Pessoal

30/03/2015 21:23

A Paz é uma Vitória Pessoal

Com o constante confronto entre a coalizão anglo-americana e o Iraque realizou-se, em São Paulo, uma passeata a favor da paz. Não fui, mas uma amiga, que não abre mão de defender aquilo em que acredita, compareceu. Ficou encantada com a organização da manifestação e a diversidade de pessoas que agrupava. "Brancos, negros, amarelos, gente das mais diversas origens, de todas as idades e preferências sexuais. Todos unidos, em total harmonia, pedindo paz", contou-me ela. "Pena que, ao chegar em casa, tive o desprazer de encontrar o mau humor do senhor meu marido", concluiu, me fazendo lembrar que há anos ela convive com esse mau humor e reage com frases irônicas e um balançar de ombros que certamente agravam o ânimo (ou desânimo) do cônjuge.

Afinal de contas, você deve estar se perguntando, o que é que um casamento aborrecido e desarmonioso tem a ver com uma manifestação de paz e a guerra EUA-Iraque? Confesso que até conversar com essa amiga eu responderia "nada, é claro", mas sua história fez com que eu percebesse uma situação altamente contraditória: muitas pessoas clamam por paz social, mas vivem uma guerra civil particular, violenta, restrita às paredes de suas casas. Freqüentemente também alimentam um outro tipo de guerra dentro de si mesmas, divididas entre emoção e razão, sonho e realidade, anseios e repressão, "quero e não quero". E, para piorar, dedicam-se, ainda, a brigas mentais intermináveis com seus chefes, familiares, amigos, fornecedores... Ou seja, pedem paz, mas vivem potencialmente em estado de guerra contínua e acirrada em várias frentes – pessoal, profissional e afetiva – sem a menor possibilidade de negociação, acordo ou trégua. Pior, nem mesmo se dão conta das repercussões desses conflitos pessoais ou internos, que prejudicam a saúde e a qualidade de vida, contaminando os outros como uma epidemia de proporção alarmante – por mais que tentemos, é impossível manter em quarentena, isolado, o vírus da insatisfação, da angústia, da raiva e da violência interna. Ele se alastra, impiedoso, e como em um jogo de dominó acaba afetando não só quem está por perto, mas toda a comunidade.

Quando acumulamos irritação e frustração, nos tornamos muitas vezes violentos, nos agredimos e ofendemos aos outros. Dormimos mal, não queremos "papo" com ninguém – nem mesmo com o filho que pede a nossa atenção –, nos enchemos de culpa e raiva. Enfim, declaramos guerra ao mundo e ao nosso interior, e projetamos para o ambiente que nos cerca uma energia tensa, negativa. Se, ao contrário, superamos desafios sem perder o rumo e o bom humor (importantíssimo!), ao conquistar vitórias pessoais significativas – mesmo que, para os outros, elas sejam insignificantes –, o cenário se transforma radicalmente. Dormimos bem e, ao acordarmos, nos dedicamos um olhar amoroso no espelho, e estendemos esse amor a quem nos rodeia: na mesa do café da manhã, brincamos com nossos filhos, trocamos carinhos com nossos companheiros de vida, e esquecemos o jornal atrás do qual nos escondemos nos dias negros.

Acredito que a paz mundial e a diminuição da violência não ocorrerão enquanto não formos capazes de nos amarmos e, em conseqüência, respeitarmos e amarmos aos outros. A paz que desejamos não pode surgir da derrota de um dos oponentes ou da preponderância de um ponto de vista, mas é fruto da tolerância e da compreensão, da aceitação do diferente e das nossas próprias diferenças. Ela nasce dentro de nós, ganha corpo no ambiente doméstico e atinge sua maturidade e plenitude no exercício de atitudes positivas, tanto no âmbito pessoal quanto no social. Quando atingimos esse estágio, reagimos espontânea e positivamente a qualquer situação difícil. Não há tempo ruim, como se costuma dizer, pois estamos centrados e em perfeita harmonia, conhecemos nossa missão, sabemos quais são nossas metas, somos tolerantes com as nossas limitações, sentimos amor próprio – e amamos aos outros muito mais e melhor!

Sei que nos amar não é uma prática comum nem fácil. É um exercício contínuo de autoconhecimento que começa com a avaliação de nossas atitudes, sentimentos e pensamentos, e a valorização dos nossos pontos positivos. Não devemos ter vergonha de nos fazer um elogio de vez em quando, nem de nos aplaudir a cada pequena vitória, pois isso nos fará mais seguros e firmes, e facilitará a manifestação plena de nossas qualidades e talentos, propiciando a tranqüilidade interior. Desta forma, constituiremos, um a um, sementes da tão sonhada paz mundial.

Por Leila Navarro